BBSs e Hacking
Terminais e Videotexto
Muito antes de existir a internet como a conhecemos hoje, o que havia eram as BBSs (Bulletin Board Systems). O termo bulletin board remete àqueles quadros de avisos de cortiça, onde se fixavam papéis com tachinhas sobre os mais diversos assuntos.
A ideia era criar um sistema eletrônico onde alunos de universidades ou funcionários de empresas pudessem se comunicar por mensagens e avisos, compartilhar arquivos e colaborar em projetos.
Nas universidades americanas, desde os anos 1970, já existiam terminais DEC VT100 disponíveis para os alunos trabalharem em sistemas de time-sharing, que distribuíam pequenos intervalos de processamento entre cada sessão, dando a impressão de que cada usuário possuía um computador dedicado. Cada terminal era conectado por meio de uma porta serial a um servidor central, tipicamente um DEC PDP-11, utilizando uma topologia em estrela: os terminais se ligavam a um terminal server, um concentrador com múltiplas portas seriais, que por sua vez se conectava ao servidor principal. Os terminais VT100 também podiam se conectar remotamente ao servidor, usando um modem, geralmente a 300 ou 1200 bps.
Ao longo dos anos 1980, esses concentradores evoluíram para suportar Ethernet, e os terminais remotos deixaram de se conectar via RS-232 direta, passando a se comunicar por redes. Nesse contexto, consolidou-se o uso do padrão de terminal VT100, originalmente da DEC. As BBS e sistemas multiusuário passaram a adotar implementações compatíveis com esse padrão — muitas vezes parciais ou com extensões próprias — para exibição de texto, controle de tela e cores, sendo o formato mais comum conhecido como ANSI BBS. Essa compatibilidade permitiu que diferentes terminais e microcomputadores acessassem os sistemas de forma uniforme, e esse conjunto de códigos baseado em ANSI/VT100 acabou se tornando um padrão de fato, ainda amplamente utilizado hoje em emuladores de terminal, conexões Telnet e ambientes Unix.
Houveram também serviços públicos pelo mundo. O Minitel (Médium Interactif par Numérisation d'Information Téléphonique) começou a ser implantado comercialmente em 1982 na França. O projeto foi desenvolvido pela PTT (Postes, Télégraphes et Téléphones), antecessora da atual France Télécom.
O terminal do Minitel era um pequeno computador dedicado, com teclado, tela monocromática e modem integrado. Originalmente, era entregue gratuitamente aos assinantes de telefone para substituir o catálogo telefônico impresso. O Minitel não era um computador de uso geral como os PCs da época, servia exclusivamente para acessar os serviços da rede. Era um terminal de videotexto para acessar o serviço através de linhas de telefone.
Entre os serviços disponíveis estavam: catálogo telefônico, mensagens, notícias, compras, reservas, bancos e serviços oferecidos pelo governo. No auge do sistema, mais de 25 milhões de terminais estavam em uso na França, tornando o Minitel um dos maiores serviços online pré-internet do mundo. O serviço foi aposentado em 2012 depois de mais de 30 anos de existência.
Terminal Minitel                         Terminal DEC VT100
Nos Estados Unidos, surgiram vários serviços pagos acessados por modem. A CompuServe, iniciada em 1979, oferecia e-mails, fóruns, notícias, cotações da bolsa e jogos. O Prodigy, lançado em 1984, era um serviço semelhante ao Minitel, desenvolvido pela IBM em parceria com a rede de lojas Sears.
O mais interessante é que, no início dos anos 1980, com a popularização da Apple e dos primeiros IBM PCs, o computador passou a ser pessoal. Pela primeira vez, tornou-se possível ter um computador em casa e conectá-lo aos sistemas da universidade ou da empresa ou serviços públicos e comerciais, utilizando a linha telefônica.
Um Apple II custava, na época, cerca de US$ 1.000, valor extremamente elevado para a realidade brasileira, até que fabricantes nacionais começaram a produzir clones mais baratos. Mesmo assim, computadores e modems continuavam sendo artigos de luxo e muito pouco presentes nos lares.
No Brasil, o Videotexto teve pouca difusão e infraestrutura bastante limitada, restrita a serviços locais, como lista telefônica e chat. Como o governo não desenvolveu um terminal simples para os assinantes, poucos brasileiros possuíam computadores pessoais, que chegavam a preços proibitivos no mercado nacional. As linhas telefônicas disponíveis eram escassas e instáveis, limitando o alcance do serviço. Sem terminais dedicados acessíveis, apenas quem já tinha um pc podia usar o sistema. Além disso, os serviços oferecidos eram básicos e fragmentados, sem padronização. Essa combinação de fatores manteve o Videotexto restrito a nichos experimentais e empresas.
A Embratel, estatal brasileira de telecomunicações, criou o projeto Ciranda, uma tentativa de estabelecer uma rede nacional de comunicação de dados. O projeto, no entanto, teve pouco alcance. Lembro do meu pai discando de São Paulo para o Rio de Janeiro para acessar essa rede experimental, utilizando um modem que ele mesmo patenteou para o Apple II, o Unimodem.
Infraestrutura Telefônica e Modems
US Robotics Courier V.Everything
A infraestrutura de cabos telefônicos era conhecida como POTS (Plain Old Telephone System). O modem tinha a função de converter dados digitais do computador em sinais sonoros analógicos para atravessar a linha telefônica e, do outro lado, realizar o processo inverso. Protocolos de correção de erros e handshakes negociavam a maior velocidade possível entre os dois lados — aquele som característico que se ouvia no momento da conexão.
O termo baud é frequentemente confundido com bps (bits por segundo), mas eles não significam a mesma coisa. Baud refere-se ao número de símbolos transmitidos por segundo, sendo “símbolo” apenas um estado ou variação do sinal elétrico, e não letras ou caracteres. O termo vem da telegrafia, onde cada mudança no sinal representava um símbolo. Nos primeiros modems, cada símbolo carregava apenas um bit de informação, fazendo com que baud e bps tivessem o mesmo valor. Com o avanço das técnicas de modulação, passou a ser possível codificar vários bits em um único símbolo, permitindo aumentar a taxa de transmissão em bps sem elevar o baud.
Os modems eram lentos porque as linhas telefônicas eram analógicas e projetadas apenas para a transmissão da voz, além de apresentarem ruído elevado e qualidade irregular. Durante décadas, a Bell System manteve controle rígido sobre as linhas e os equipamentos, utilizando restrições técnicas e burocráticas para preservar o monopólio. Isso impedia a conexão elétrica direta de modems à rede telefônica. Como alternativa, utilizava-se o acoplador acústico, uma base com falante e microfone onde se encaixava o monofone, transmitindo e recebendo os sinais por som e evitando qualquer contato elétrico com a rede. Essa solução atrasou a evolução da tecnologia, pois limitava as velocidades a cerca de 300 bps, chegando no máximo a 1200 bps em condições ideais. Somente com a quebra do monopólio da AT&T, efetivada em 1984, o mercado foi de fato liberalizado, permitindo o avanço da tecnologia dos modems de conexão direta e velocidades cada vez mais rápidas de transmissão.
Os modems da época seguiam padrões como o V.22, oferecendo 1200 bps de download e apenas 75 bps de upload assíncrono. Era lento até para desenhar caracteres na tela, e mais lento ainda para transmitir dados.
A padronização dos modems domésticos começou no final dos anos 1970, com a Hayes Microcomputer Products, que lançou um dos primeiros modems amplamente aceitos para microcomputadores. A Hayes também definiu o padrão de comandos AT, que se tornaria praticamente universal e permitiria que diferentes softwares controlassem modems de fabricantes distintos de forma padronizada — um fator decisivo para a expansão das BBSs.
Esses padrões evoluíram gradualmente até o X2 e o V.90, que permitiam velocidades teóricas de até 56 kbps. Depois disso, começaram a surgir tecnologias como o ADSL (Asymmetric Digital Subscriber Line), que permitiam conexões típicas de 256 kbps ou mais, cerca de cinco vezes mais rápidas do que uma linha discada analógica.
Esse foi o início do que passou a ser chamado de banda larga. Outras tecnologias também surgiram nesse período, como download via satélite com upload discado, links de rádio por micro-ondas, conexões via TV a cabo e, finalmente, a fibra óptica.
Durante esse período, as velocidades de conexão evoluíram gradualmente, conforme ilustrado na tabela a seguir, que mostra os principais padrões de modem, suas velocidades típicas e o tempo necessário para transferir arquivos de diferentes tamanhos. Mesmo assim, downloads longos eram comuns, e qualquer queda de linha podia significar horas perdidas.
Padrões de Velocidade das Portas Seriais — Linha do Tempo
| UART / Chip | Ano aproximado | Buffer (FIFO) | Velocidade típica suportada |
|---|---|---|---|
| 8250 | 1981 | Sem FIFO | até 9.600 bps (19.200 instável) |
| 16450 | 1984 | Sem FIFO | até 19.200 bps (38.400 no limite) |
| 16550 | 1987 | FIFO defeituoso (desativado) | igual ao 16450 |
| 16550A | 1988 | FIFO duplo (TX/RX) de 16 bytes | 38.400 / 57.600 / 115.200 bps |
| 16650 | 1992 | FIFO duplo (TX/RX) de 32 bytes | 115.200 bps estável |
| 16750 | 1995 | FIFO duplo (TX/RX) de 64 bytes | 230.400 bps |
| 16850 / 16950 | Final dos anos 1990 | FIFO duplo (TX/RX) > 64 bytes | 460.800 bps ou mais |
A evolução dos modems nos padrões V.22, V.32, V.34 e posteriores só foi possível porque as portas seriais dos PCs também evoluíram. O surgimento do UART 16550A, com buffer FIFO, permitiu que o computador acompanhasse as altas taxas de dados dos modems sem perda de informações.
Programas como o Procomm Plus exploraram esse recurso de forma eficiente, detectando o UART e ativando o FIFO, reduzindo interrupções e garantindo uma comunicação serial estável mesmo em velocidades elevadas, como 57.600 ou 115.200 bps. Essa combinação de hardware adequado e software otimizado foi fundamental para tornar as conexões discadas mais rápidas e confiáveis.
Padrões de Velocidade dos Modems — Linha do Tempo
| Ano de lançamento do padrão | Padrão / Modem | Modulation | Velocidade (bits/s) | Download 1 MB |
|---|---|---|---|---|
| 1964 (V.21) | 300 baud (Bell 103 / V.21) | FSK | 300 | ≈ 7h 45min |
| 1964 (V.23) | V.23 (Minitel / Videotexto) | FSK | 1200 / 75 | ≈ 1h 56min |
| 1976 (Bell 202) | 1200 bps simétrico (Bell 202) | FSK | 1200 | ≈ 1h 56min |
| 1984 (V.22bis) | V.22bis / 2400 bps | QAM | 2400 | ≈ 58min |
| 1984 (V.32) | V.32 / 9600 bps | Trellis (TCM) | 9600 | ≈ 15min |
| 1991 (V.32bis) | V.32bis / 14.400 bps | Trellis (TCM) | 14.400 | ≈ 10min |
| 1994 (V.34) | V.34 / 28.800 bps | QAM + Trellis | 28.800 | ≈ 4min 50s |
| 1996 (V.34) | V.34 / 33.600 bps | QAM + Trellis | 33.600 | ≈ 4min 10s |
| 1998 (V.90) | V.90 / 56k | PCM (downstream) / QAM (upstream) | 56.000 / 33.600 | ≈ 2min 30s |
Protocolos de Transferência — Linha do Tempo
| Protocolo | Ano | Tipo | Detecção de Erro | Características principais | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|---|---|---|---|
| XMODEM | 1977 | Blocos 128B | Checksum | Primeiro protocolo popular de transferência por linha serial. | Muito simples e amplamente suportado. | Lento; overhead alto; sem batch. |
| XMODEM-CRC | ~1981 | Blocos 128B | CRC-16 | Versão do XMODEM com CRC, aumentando significativamente a confiabilidade. | Detecção de erro muito superior ao checksum. | Ainda lento; bloco pequeno. |
| Kermit | 1981 | Adaptativo | Checksum / CRC-16 | Projeto acadêmico altamente configurável, ideal para linhas instáveis. | Muito robusto e flexível; portátil entre sistemas. | Complexo e geralmente mais lento. |
| XMODEM-1K | ~1983–1985 | Blocos 1 KB | CRC-16 | Extensão do XMODEM com blocos maiores para reduzir overhead. | Melhor eficiência em linhas estáveis. | Ainda sem suporte a batch. |
| YMODEM | ~1985 | Batch / múltiplos | CRC-16 | Suporta envio em lote, transmite metadados (nome, tamanho). | Maior usabilidade; envio de múltiplos arquivos. | Incompatibilidades entre implementações. |
| TELINK | ~1985 | XMODEM batch | CRC-16 | Permite envio de listas de arquivos mantendo base XMODEM. | Útil para scripts e automação simples. | Pouca adoção; rapidamente superado. |
| SEAlink | 1986 | XMODEM com janelas | CRC-16 | Implementa janela deslizante para reduzir ACKs. | Melhora throughput sem romper compatibilidade básica. | Complexidade maior; eclipsado pelo ZMODEM. |
| ZMODEM | 1986 | Streaming | CRC-32 | Auto-start, resume, batch e alta eficiência; referência da era BBS. | Rápido, tolerante a erros, retoma transferências. | Mais complexo; não padronizado oficialmente. |
| YMODEM-G | ~1988 | Stream (sem ACK) | Sem correção (assume linha limpa) | Elimina ACKs para máximo throughput. | Muito rápido em linhas dedicadas ou ISDN. | Inviável em linhas discadas comuns. |
| JMODEM | 1988 | Blocos variáveis | CRC | Protocolo experimental buscando equilíbrio entre velocidade e robustez. | Bom desempenho em cenários específicos. | Não padronizado; adoção mínima. |
Tabela em ordem cronológica com destaque para detecção de erro, suporte a batch e recursos como resume/auto-start, assim como prós e contras.
Nota: A compactação não era feita pelos protocolos — arquivos vinham pré-compactados (ZIP, ARJ, LZH). O protocolo cuidava só da transferência e correção de erros (checksum/CRC) e, no caso do ZMODEM, retomada de downloads interrompidos.
Diagnósticos do Modem Courier V.Everything
ATQ0V1E0 - OK
AT+FCLASS=? - 0,1,2.0
ATI1 - 1A11
ATI2 - OK
ATI3 - USRobotics Courier V.Everything
ATI5 - USRobotics Courier V.Everything NVRAM Settings...
BAUD=115200 PARITY=N WORDLEN=8 DIAL=PULSE
B0 F1 M1 X4 &A1 &B1 &G0 &H1 &I0 &K3
&L0 &M4 &N0 &P0 &R1 &S0 &T5 &U0 &X0 &Y1 %N6 #CID=0
S00=001 S02=255 S03=013 S04=010 S05=008 S06=002 S07=060 S08=002
S09=006 S10=014 S11=070 S12=050 S13=000 S15=000 S19=000 S21=010
S22=017 S23=019 S24=150 S25=005 S26=001 S27=000 S28=008 S29=020
S31=000 S32=009 S33=000 S34=000 S35=000 S36=000 S37=000 S38=000
S39=000 S40=000 S41=000 S42=126 S43=200 S44=015 S51=000 S53=000
S54=064 S55=000 S56=000 S57=000 S58=000 S59=000 S60=000 S61=000
S69=000 S70=000
STORED PHONE NUMBERS
0: 1:
2: 3:
4: 5:
6: 7:
8: 9:
STORED COMMAND =
ATI6 - USRobotics Courier V.Everything Link Diagnostics...
Chars sent 0 Chars Received 0
Chars lost 0
Octets sent 0 Octets Received 0
Blocks sent 0 Blocks Received 0
Blocks resent 0
Retrains Requested 0 Retrains Granted 0
Line Reversals 0 Blers 0
Link Timeouts 0 Link Naks 0
Data Compression NONE
Equalization Long
Fallback Disabled
Last Call 00:00:00
No Connection
ATI7 - USRobotics Courier V.Everything Configuration Profile...
Product type US/Canada External
Options HST,V32bis,Terbo,VFC,V34+,x2,V90
Fax Options Class 1,Class 2.0
Clock Freq 20.16Mhz
Flash ROM 512k
Ram 64k
Supervisor date 03/13/98
DSP date 03/13/98
Supervisor rev 7.3.14
DSP rev 3.0.13
Serial Number 20XOB6P6U8M0
BBSs
Os BBSs funcionavam originalmente com um conceito simples: cada node correspondia a uma linha telefônica conectada a um computador por meio de um modem individual. Isso acontecia porque os softwares de BBS mais utilizados, como PCBoard e Remote Access, rodavam sobre o MS-DOS, que não era multitarefa. Ou seja, só era possível executar uma instância do programa por vez, mesmo que o hardware dispusesse de várias portas seriais e múltiplos modems.
Além disso, o DOS não possuía recursos nativos de rede. Para interligar vários nodes em uma mesma BBS, era necessário utilizar uma rede local, geralmente baseada em Novell NetWare, conectando máquinas distintas por placas Ethernet. Cada máquina atendia a um usuário simultâneo.
Em meados dos anos 1990, antes mesmo do Windows NT se popularizar com multitarefa real, algumas soluções permitiam contornar essas limitações. Um exemplo foi o Quarterdeck DESQview/X, que possibilitava executar várias instâncias de software DOS na mesma máquina, em janelas gráficas, geralmente em conjunto com o NetWare.
Os modems externos eram conectados por placas seriais com múltiplas portas, ou por equipamentos dedicados como o US Robotics Total Control, um rack modular capaz de concentrar dezenas de modems em um único sistema. Esse tipo de equipamento era comum em BBSs comerciais e provedores profissionais.
A maioria das BBSs de médio e grande porte utilizava modems US Robotics Courier, considerados os melhores já fabricados. Eram extremamente caros, robustos e confiáveis, projetados para funcionar 24 horas por dia. Não era raro que o custo de um único modem Courier superasse o valor de um computador completo da época.
Muitos usavam programas de Terminal para DOS, como Telix, Qmodem/Qmodem Pro, Procomm Plus, Terminate e outros.
No Windows 95-98 estava incluido o Hyperterminal, licensiado pela Microsoft, basico, mas bem razoável. Qmodem Pro para Windows e o melhor de todos.
O Procomm Plus para Windows, que tinha diversos scripts de conexão automatica, varios protocolos e emulaçoes de terminal, e era muito completo.
Os principais programas de BBS utilizados eram o PCBoard e o Remote Access. O Worldgroup Manager representou uma tentativa mais avançada, oferecendo uma interface gráfica clicável, que rodava no cliente e apresentava uma experiência visual inédita para a época, mas teve uma vida muito curta. Em 1996, isso era algo realmente novo. A internet ainda era bastante primitiva, com poucos sites de grandes empresas ou universidades, e páginas construídas quase exclusivamente em HTML simples, com hyperlinks e pouco ou nenhum conteúdo multimídia.
Os programas tradicionais de BBS operavam majoritariamente em modo texto, utilizando doors em ANSI e artes desenhadas apenas com caracteres ASCII coloridos. Existiam grupos internacionais dedicados exclusivamente à produção dessas artes, conhecidas como ANSI Art, que eram distribuídas em compilações mensais disponibilizadas para download em áreas específicas das BBSs.
Com a popularização da internet comercial, as BBSs acabaram ficando para trás, mas muita coisa do que usamos hoje nasceu ali. Fóruns, comunidades online, chats, sistemas de reputação e o próprio hábito de compartilhar arquivos vieram desse período.
As conexões eram lentas, o acesso era limitado e tudo envolvia um investimento grande de tempo e dinheiro. Por isso, cada download era pensado e cada mensagem realmente lida e assimilada, nessa época a redação de textos nas BBSs podia se estender por várias páginas, não era econômico e imediatista como os aplicativos de mensagens instantâneas da atualidade, quem que cada mensagem raramente ultrapassa uma frase.
Hoje, projetos de preservação histórica e BBSs ativas, acessíveis via Telnet ou WebSocket mantêm viva essa memória, não apenas como nostalgia, mas como registro do nascimento da cultura digital. Visite Telnetbbsguide.com, que mantém uma lista extensa e atualizada de BBSs disponíveis para acesso.
Os BBSs Comerciais no Brasil
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COMPAQ Prosignia ▀▀▀▀▀▀\ ▀▀▀▀▀▀\ ▀▀▀▀▀\ Tecnologia Acabit
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Novell V4.1 ▀▀▀▀▀▀\ ▀▀▀▀▀▀\ ▀▀▀▀▀\
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US Robotics ▀▀▀▀▀▀\ ▀▀▀▀▀▀\ ▀▀▀▀▀\ Node: 200
I N T E R N E T
(011) 816-3911 V.FC. V.34+ 33.600 (público)
0800-16-3911 (Nivel EXTENDED acima de 300Km de Sao Paulo/SP)
E-mail: [email protected]
http://www.mandic.com.br
Telnet: bbs.mandic.com.br
FAX: (011) 816-3245 VOZ: 870-0888
A SP Online BBS surgiu no início dos anos 1990 como uma das diversas plataformas de troca de mensagens, arquivos e serviços via modem discado na cidade de São Paulo. Assim como outras BBSs da época, os usuários acessavam o sistema por telefone, utilizando programas de terminal para comunicação através de linhas discadas e modems (modulador/demodulador).
A SP Online soube investir em infraestrutura, ampliando o número de nodes, linhas telefônicas e servidores de arquivos. Também mantinha áreas ativas de discussão, downloads e serviços, o que fez com que, em poucos anos, se destacasse como uma das maiores BBSs do Brasil, ao lado da Mandic BBS, que acabaria se tornando ainda maior.
Eu e um amigo dividíamos uma assinatura da STI, ainda na época em que o serviço funcionava como BBS. O acordo era simples: um usava nos dias pares, o outro nos dias ímpares. Quando sobrava tempo, os minutos restantes eram armazenados no banco de horas. Cada usuário podia se conectar por até uma hora por dia, garantindo que outros também tivessem acesso às linhas disponíveis.
Caso fosse necessário permanecer conectado além do limite diário, o tempo excedente era descontado do banco de horas. Nosso usuário compartilhado acabou se tornando, em poucos meses, o “Top Downloader” do ranking mantido pela BBS, reflexo direto dessa estratégia.
Os BBSs menores geralmente não dispunham de muitas linhas telefônicas. Por esse motivo, era comum deixar o modem discando dezenas de vezes até encontrar uma linha disponível para conexão. Esse ritual fazia parte da rotina de qualquer usuário frequente de BBS.
No caderno de informática da Folha de São Paulo havia uma pequena coluna que listava os BBSs ativos e seus respectivos números de telefone para acesso. Esse tipo de divulgação era fundamental para a sobrevivência dessas redes locais.
Encontramos uma cópia da Darklist de 1996, uma publicação colaborativa que circulava entre diversas BBSs e reunia uma lista ampla e detalhada dos sistemas ativos em São Paulo. Os dois arquivos no formato .DOC são originais. Convertemos a lista para PDF e a descrição para TXT por conveniência.
É uma pena que os demais arquivos do pacote original não tenham sido preservados, mas mesmo assim o material representa um registro histórico valioso da cena de BBSs da época.
DARKLIST.DOC DARKLIST.pdf DARKLIST_UTF8.txt DARKWORD.DOC
Outra BBS que merece destaque é a Sherwood BBS. O acesso geral era aberto, mas uma área especial exigia indicação, oferecendo materiais diferenciados que justificavam o valor da assinatura e refletiam bem a filosofia do sistema.
Com a chegada da internet comercial ao Brasil, em 1995, os criadores da SP Online perceberam o potencial de oferecer acesso direto à web. Assim, o BBS evoluiu para a STI (Solution Technology Information), tornando-se um provedor de acesso à internet (ISP), assim como a Mandic e poucos outros que conseguiram se adaptar.
A maioria das BBSs, no entanto, não sobreviveu a essa transição. Com a perda de interesse dos usuários e a popularização da web, muitos sistemas desapareceram de forma rápida e definitiva.
Hacking
Também havia zines e publicações independentes produzidas por grupos anônimos ou semi-anônimos ligados à cena hacker. Um dos mais conhecidos internacionalmente era o Phrack, que publicou em um de seus números o famoso Hacker Manifesto, texto que acabou sendo popularizado no filme Hackers, de 1995.
Outro grupo importante foi o Cult of the Dead Cow (cDc), responsável pelo famoso exploit Back Orifice, que permitia controle remoto completo de sistemas Windows. O nome era uma clara zombaria ao BackOffice da Microsoft, refletindo o humor ácido característico da época.
Havia também o Legion of Doom (LoD), um dos grupos mais conhecidos dos anos 1980 e 1990, responsável pela publicação de inúmeros textos técnicos e tutoriais. Seu principal rival era o Masters of Deception (MOD), especialmente ativo em Nova York, com foco em telecomunicações e hacking de redes.
Outros grupos menos conhecidos, mas igualmente ativos, incluíam o Global Hell, conhecido por uma postura mais agressiva e por ataques a grandes corporações, e o The Hacker’s Underground (THU), que circulava textos e guias técnicos em diversas BBSs. Já o grupo ACiD (ANSI Creators in Demand) era mais focado em arte ASCII e ANSI Art, embora também produzisse textos e demos.
O alt.2600 era um newsgroup da Usenet criado no início dos anos 1990, funcionando como ponto de encontro da comunidade hacker ligada à revista 2600: The Hacker Quarterly, editada por Emanuel Goldstein.
O livro The Best of 2600: A Hacker Odyssey reúne alguns dos melhores artigos publicados na revista ao longo dos anos. Outra leitura altamente recomendada é Exploding the Phone, que documenta a história do phone phreaking e das técnicas de blueboxing utilizadas para explorar brechas no sistema telefônico americano.
No Brasil, alguns zines também circularam nas BBSs. Um exemplo importante foi o Barata Elétrica, escrito por Derneval Rodrigues da Cunha, então estudante da USP. O zine abordava hacking, tecnologia e cultura digital. Anos depois, o próprio autor comentou, em uma rede social, que o nome fazia referência à ideia inicial de criar algo semelhante a uma praga ou vírus — um registro curioso e importante da mentalidade da época.
be01.zip be02.zip be03.zip be04.zip be05.zip be06.zip be07.zip be08.zip be09.zip be10.zip be11.zip be12.zip be13.zip be14.zip be15.zip be16.zip be17txt.zip be18txt.zip be19txt.zip be20.zip be20htm.zip be21.zip be21htm.zip be22txt.zip be23htm.zip be24html.zip be25html.zip be26html.zip
Shareware
Outro fenômeno marcante desse período foi o surgimento do modelo de distribuição conhecido como shareware, que permitia o compartilhamento gratuito de versões de avaliação de programas e jogos, incentivando a compra da versão completa. Esse modelo se espalhou rapidamente e impulsionou uma enorme produção de software independente.
Na época em que os disquetes ainda eram o principal meio de distribuição e os discos rígidos eram caros e pequenos, começaram a surgir CDs de compilações contendo milhares de programas, jogos e imagens. Entre 1991 e 1992, chegaram ao mercado os primeiros drives de CD-ROM de velocidade 1x (150 KB/s), seguidos por modelos 2x e 4x.
Inicialmente, esses drives utilizavam interfaces SCSI, eram caros e exigiam uma placa controladora dedicada. A partir de 1993, começaram a ser vendidos kits multimídia, como os da Creative Labs, que incluíam um drive CD-ROM 2x Panasonic, uma Sound Blaster 16 ISA, caixas de som amplificadas, microfone e alguns títulos em CD, como o Microsoft Encarta, Enciclopédia Grolier e alguns jogos. Era um excelente upgrade para um computador 486 ou pentium que não tinha placa de som e CD-ROM.
Entre 1994 e 1995, os drives CD-ROM 4x com interface IDE (ATAPI) passaram a ser conectados diretamente à placa-mãe, compartilhando o mesmo barramento do disco rígido. O Windows já incluía suporte nativo a esses dispositivos, embora muitos jogos ainda rodassem em DOS e exigissem drivers específicos.
Como a maioria dos usuários ainda não possuía CD-ROM nem placa de som, muitas BBSs mantinham servidores com vários drives de CD online, disponibilizando grandes coleções de shareware para exploração e download. Entre os repositórios mais famosos estavam SIMTEL, Night Owl’s, Walnut Creek, CICA Windows Archive, Aminet (para usuários de Amiga) e os CDs de distribuições Linux como Slackware e FreeBSD.
O Internet Archive atualmente preserva uma coleção completa desses CDs históricos. As BBSs também costumavam manter espelhos de repositórios de software, como o OAK Software Repository, da Oakland University, cujo FTP (fora do ar desde 2001) era uma referência para programas de DOS.
Todos os softwares distribuídos nas BBSs utilizavam um pequeno arquivo de descrição chamado file_id.diz, que continha informações como nome do programa, versão, autor, data e número de partes. Esse arquivo era automaticamente exibido nas áreas de download pelos sistemas de BBS.
Além das diversas áreas destinadas ao download de programas e imagens, as BBSs também abrigavam vastos acervos de arquivos de texto, que tratavam dos mais variados temas: hacking, phone phreaking, ocultismo, informática, radioamadorismo, televisão, sobrevivencialismo, teorias da conspiração, ficção, entre outros.
Como não existiam mecanismos de busca na web, o modelo de FAQs (Frequently Asked Questions) tornou-se extremamente popular, servindo como forma de organizar e difundir conhecimento de maneira estruturada e acessível. Esses documentos eram constantemente atualizados e redistribuídos entre sistemas.
Um dos maiores e mais importantes acervos preservados desse tipo de material é o site textfiles.com, organizado por Jason Scott. O projeto reúne milhares de textos históricos, cuidadosamente categorizados, permitindo reconstituir a forma como o conhecimento e a cultura digital eram compartilhados antes da popularização da web moderna.
Antes de a web se consolidar como espaço público da internet, a id Software já mantinha contato direto com seus usuários por meio de BBSs próprios e de terceiros. A empresa operava um BBS oficial, utilizado para distribuir versões shareware, correções e informações técnicas, além de servir como ponto de troca entre desenvolvedores, jogadores avançados e sysops. Esse modelo permitia que os arquivos circulassem rapidamente por linhas discadas, sendo replicados manualmente entre sistemas independentes. Quando a id passou a utilizar servidores FTP universitários para seus lançamentos, essa forma de distribuição já era conhecida e funcional — BBSs e FTPs coexistiam como meios complementares dentro da mesma cultura de compartilhamento.
Em 10 de dezembro de 1993, a id Software disponibilizou o DOOM em formato shareware no servidor ftp.cs.wisc.edu, da Universidade de Wisconsin–Madison, utilizando um modelo de distribuição ainda pouco comum fora do ambiente acadêmico. A demanda superou rapidamente a capacidade do sistema, com acessos simultâneos suficientes para comprometer o funcionamento do servidor e exigir intervenção administrativa. Como a internet ainda era de acesso limitado, o jogo passou a circular também por BBSs, sendo largamente distribuído por esse meio. DOOM tornou-se, assim, um marco técnico e cultural: consolidou o shareware como forma viável de distribuição em larga escala e popularizou o jogo em rede tanto por local IPX quanto por conexões remotas entre modems, situando-se no ponto de transição entre a cultura das BBSs e a internet emergente.
Documentários Sobre BBS
Ambos os documentários são excelentes e mostram diversos aspectos da comunicação digital e da presença online antes da internet. O documentário de Jason Scott, lançado em 2001, é composto por oito episódios, totalizando mais de cinco horas, e reúne mais de 200 entrevistas com criadores dos primeiros BBSs, protocolos e redes, revelando como tudo começou. Já Back to the BBS de 2020, explora em profundidade temas de grande interesse na época, como jogos de texto, a artscene de ANSI Art, trackers de música e a Demoscene.
incluir phile da lista de usenet e zines brasileiras